Já estamos perto do seu aniversário de um ano. Você é muito esperta, claro. Ontem surpreendeu sua mãe desligando a televisão e apagando a luz com seu dedinho em ponta, direto no interruptor. Você aperta o interruptor direitinho, mas se surpreende quando a luz apaga. Apertou o comando da tevê, e quando ela desligou, você correu assustada pro colo da tua mãe.  Uma fofa. Já fala mama, papa, aba (acabou), iô (miau), ã (não) e ARHGHAHHHHHHH!!!! (sou contra).

Quando era mínima chorava assustada com o barulho de seu próprio pum. Gosta de dançar e até de dançar junto como no tempo da vovó. Puxa minha saia pra eu te carregar no colo e a gente dançar forró. Já entende muitas palavras: mamadeira, biscoito, ventilador, avião, macaco, sapato, boneca, bebê do espelho (é você mesma mas você ainda não sacou), pé, vovó, lingua, pé, beijo, Guigui, travesseiro, centopeia, foca e Mafalda, principalmente Mafalda, que foi a primeira palavra que você entendeu.

A gente perguntava Cadê mamãe? Cadê papai? Cadê vovó? e ... nada... Cadê Mafalda? você olhava direto pra cachorrinha. Mas isso foi antigamente, quando você era mínima. Agora você já sabe até o que é "vamos fazer bagunça na cama da vovó".

Temos treinado muito na piscina, em breve você vai nadar de boia sozinha. Papai e mamãe te levam à praia e você adora, adora festas também. Detesta chapeu (chapeu acabou de perder o acento). Chapéu assim com acento é coisa do tempo da vovó.

Seus pais estão organizando uma grande festa pra comemorar seu primeiro aninho de vida. Sem animadores com microfone porque você não gosta de barulhão. Tem medo de liquidificador ligado, de secador de cabelo ligado e de baile funk ligado(ainda não foi, mas se fosse teria medo)

O que mais ouvimos quando saímos com você na rua é: Que simpática!

Esperamos que você continue simpática. Mas se for antipática, gostaremos de você assim mesmo. Outro dia queria porque queria ficar no colo da moça que veio consertar a internet. Gostou da cara dela. Fiquei até sem-graça, parecia que era carente. Adodoru a moça, uma gordinha de uniforme da empresa que ficou toda feliz. Gostou da Guiomar logo no primeiro dia em que ela veio trabalhar aqui. Pula do meu colo pro dela até hoje. Coisa de santo, diz Guiomar.

Tenta comer o baton e odeia peruca. Não chupa chupeta de jeito nenhum, adora chupar alça de bolsa. Os seres humanos são sempre assim mesmo, não se preocupe. Temos gostos estranhos.

Aprendeu cedo a dar tchau, mas não sabia a funcionalidade. Dava tchau chorando pra trocar fralda e outras bobagens. Agora você já entendeu que tchau é quando alguém vai embora ou fica. Mas falta você aprender que tem que dar tchau PRA PESSOA. Você não se dá ao trabalho de virar, dá tchau pra geladeira, pra televisão, em qualquer direção, quando alguém sai.

Mas você é inteligente. Logo entenderá.

 

 

BILU-BILUS

 

Eu e você, vamos nos adaptando.

Deitada na minha barriga, podemos dormir duas horas, e durante a tarde.

No primeiro dia ficamos dormindo no ar-condicionado.

No segundo dia, passeamos muito de carro pois você adora e dorme.

No terceiro dia, dormimos, fomos no Parque Guinle e acho que você já entendeu que sou de casa. Você sorri para todos os desconhecidos, no elevador lotado, na rua, no parque, no dentista. Adora gente que não conhece. Depois que fica íntima, chora um pouco, pega logo intimidade. Não gosta de ficar em casa vendo móbiles. Prefere a calçada, onde passam caminhões, carros, bicicletas, pessoas e britadeiras. Acha mais animado.

É claro que as pessoas mudam. Os bebês principalmente.

Mas por enquanto você é assim, de uma simpatia que acorda todos os sonâmbulos do elevador e faz todo mundo rir em conjunto.

Adorou me ver na cadeira do dentista, fazendo tratamento de canal.

Achou muito interessante o "aviãozinho", a máscara do dentista, a luz na minha cara, e ouvir meus ais.

Gosta de ver as imagens das revistas coloridas, olha com muita atenção.

Está fazendo um esforço enorme para esticar a mãozinha e pegar alguma coisa.

Pra colocar na boca futuramente, com certeza.

Ainda não consegue nada disso, mas tem se esforçado.

Estamos nos dando bem. Adoro passear também e temos dois amiguinhos: Chaiane (17) e Igor (10). E ainda a cachorrinha Mafalda, que já entendeu que não pode lamber seu pé. Comeu tua chupeta outro dia e eu tive que comprar outra.

Aliás, você não se entendeu bem com a chupeta por enquanto.

São coisas bobas, pequenas, simples, mas destes pequenos gestos cotidianos em breve surgirá uma garotinha, aparentemente voluntariosa.

Para soltar um mero pum,você dá gritos de terror e treme os lábios pequenos. E se a mamadeira, que você quase nao toma e que não aprecia muito, não está na temperatura correta, mais berros terríveis.

 

No mais, você é uma simpatia.

Por sua causa, estou me integrando com a vizinhança.

Relutei, mas não houve jeito.

Você sorri para todo mundo, inclusive para roupas, janelas, mochilas, cartazes, enfim, tudo que é colorido ou balança.

E não sabe direito de onde vêm as vozes.

Às vezes me esforço pra fazer uma gracinha e você sorri feliz para o móbile. Deve achar que é ele que está falando contigo. Aos poucos você aprenderá.

Estamos todos muito felizes com você.

Outro dia me peguei no clube no meio de sete pessoas, todas debruçadas sobre o teu carrinho fazendo bilu-bilus.

Adoro crianças.

Elas nos recordam que na vida não existem só jornais nacionais, guerras, desencontros, desamores e praias poluídas.

O olhar dos transeuntes para os bebês e para os cachorros é um sintoma que o mundo ainda não está totalmente perdido.

Existe em cada um de nós uma saudade da inocência.

Uma vez perdida, não se recupera jamais. 

Apenas para os privilegiados que convivem com crianças,

a vida pode ser cheia de bilu-bilus.

 

CINQUENTENÁRIAS SEM TREMA

 

Vovó continua animadíssima, mas só na cabeça. Combina mil coisas, nem sempre dá conta. Vovó se matricula, se inscreve, escreve. Inaugura uma vida nova numa nova cidade. Um Rio de Janeiro sem sol a pino, chuvoso, diferente.

É como se vovó não morasse mais numa cidade de praia. Ipanema não se cuidou nesses últimos anos. Geribá continua limpa, apesar dos quiosques, das casas enfileiradas roubando o verde, dos engarrafamentos que vovó "não suporta", e da "frequência".

Frequência perdeu o trema. Vovó pegou duas reformas ortográficas. Êle tinha acento, quando vovó era nova.

 

Vovó e suas contemporâneas inauguram as cinquentenárias sem trema. Não têm espelho onde repetir-se, não têm tradição para seguir. Algumas assumem as madeixas grisalhas. Outras fazem plástica, terapias, meditação, natação, alongamentos, preenchimentos.

A turma da vovó preenche a nova vida com planos inventados. Nunca estiveram em cartilhas. Vovó não lê livro de auto-ajuda, não acredita em fórmulas, em verdades definitivas, em donos da verdade e seus inquilinos. A verdade é como vovó, passageira.

A verdade é que vovó continua irreverente.

O médico setuagenário acha vovó "tão mocinha". O trintão quer levar vovó pro Circo Voador, mas aquele barulhão, vovó "não suporta". Vovó e seus amigos contemporâneos brincam de tomar shopinha e vez por outra remédio de tarja preta. Os amigos da vovó continuam divertidíssimos, mais ainda agora que perderam a vergonha.

 

No guarda-roupa da vovó os modelitos ainda se confundem. Não quer se fingir de brotinho, nem abraçar um luto que já não existe nem para os centenários. Vovó teme os cem anos.

As vovós sem trema pesquisam uma nova forma de vestir, que ainda está em estudo.  Enquanto refletem, passeiam, viajam, curtem a nova família recém-fundada.

De fruto e flor, vovó virou alicerce, precisa estar forte neste tronco e cuidar bem das colunas renascentistas. 

 

A dança afro virou pilates. Seus colegas de turma, todos sentem alguma dorzinha.

Vovó tem comichão nas costas. Ano passado envelheceu muito, gastou muito com médicos, fragilizou-se, teve mêdo com acento. Visitou psiquiatras, psicanalistas, homeopatas, vegetoterapeutas, osteopatas, fisiatras, fisioterapeutas. Fez uma série de hidroterapia e eletro-estimulação sueca. Teve horror de piorar da comichão na lombar e paralisou-se. Cortou curto os cabelos, suspendeu a tinta, deixou o carro na garagem e arriou a bateria. Não subiu ladeiras, evitou esforços, recusou convites, instalou muitos canais de tele-cine, assinou jornais e preparou-se para viver quase em repouso.

Como nada deu certo, bem no dia de seu aniversário subiu rampas, percorreu trilhas, pegou o sol do meio-dia bem na cara, caminhou sete horas fotografando uma cidade mineira, dirigiu pela estrada como antigamente, suspendeu os médicos e os remédios no mesmo dia. E tomou uma decisão definitiva: saiu da NET combo porque se sentia presa.

E como a comichão não piorou nem melhorou, vovó voltou a escrever, inaugurou três blogs e voltou a manipular fotografias, horas sentadas em frente ao computador, contra todas as orientações médicas.

 

Daí vovó emagreceu, o cabelo pintado cresceu de novo e vovó pegou a estrada, com comichão e tudo. Ficou mais nova, quando menos esperava.

Uns dizem que vovó está ótima, que perdeu uma falsa euforia. Outros convidam vovó pra gafieira, pro Bola Preta, vovó acha graça e recusa. Vovó perdeu a juventude, mas não perdeu a fama. É preciso reconsiderá-la.

As vovós sem trema pesquisam uma nova forma de namorar, que ainda está em estudo.

Bem-vindos ao blog da vovó

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